- Que pouca vergonha!
Não sei dizer se os artistas ouviram a exclamação, mas eu ouvi e aquilo passou por mim como uma estaca de empalação. Fiquei por um tempo remoendo e tentando entender o sentido daquilo. Seria aquele número artístico um atentado ao pudor, pra ser considerado uma pouca vergonha? Lembrei das tantas vezes que executei meu violãozinho em algum boteco qualquer, tomando aquela cachaça fresquinha, feita quase na hora, cantando sem pretensão, para admiradores que nada exigiam de mim. Estaria eu também, ou eles, fazendo vergonha?
Voltei então ao pensamento que me viera à cabeça logo pela manhã e vi que a atitude do senhorzinho é a mesma daqueles que insistem em acreditar que a vida é esse emaranhado de regras, planos, objetivos e condutas que nos fazem engolir dia a dia. Que saco! Como tem gente que prefere cultivar rugas à rir daquela flatulência em hora imprópria, cuja contenção foi mal sucedida, viu!?
No tempo em que permaneci vislumbrando os artistas, vi pessoas que passavam deixando escapar sorrisos, pessoas que também não exigiam nada, pois consideravam tudo muito suficiente. O palco estava armado e o show acontecendo, pra todo mundo ver, sem pretensões, sem porquês, sem imposições de qualquer natureza. Prefiro me juntar a esses, pois olham tudo com mais leveza, sem querer saber se aquilo se explica, se tem nome ou outro jeito de fazer, apenas convivem com as coisas em sua plenitude. A eles, meus sinceros agradecimentos.
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