O Elogio
"Outra espécie de homens é constituída por aqueles que se sentem devorados pela mania de construir. Uma vez invadidos por essa irrequieta paixão, nunca se dão por satisfeitos, sendo a sua preocupação contínua a de fazer, edificar, destruir, até que, como Horácio, nessa tarefa de mudar o quadrado em redondo e o redondo em quadrado, acabam por ficar sem casa e sem pão. E com que ficam? Ficam com a doce lembrança de terem passado com prazer um grande número de anos." - Erasmo de Rotterdam
sábado, 2 de março de 2013
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Os Rubaiyat
Omar Khayyam
versão em
português de Afredo Braga
1
Nunca murmurei uma prece,
nem escondi os meus pecados.
Ignoro se existe uma Justiça,
ou Misericórdia;
mas não desespero: sou um
homem sincero.
2
O que vale mais? Meditar numa
taverna,
ou prosternado na mesquita
implorar o Céu?
Não sei se temos um Senhor,
nem que destino me reservou.
3
Olha com indulgência aqueles
que se embriagam;
os teus defeitos não são
menores.
Se queres paz e serenidade,
lembra-te
da dor de tantos outros, e te
julgarás feliz.
4
Que o teu saber não humilhe o
teu próximo.
Cuidado, não deixes que a ira
te domine.
Se esperas a paz, sorri ao
destino que te fere;
não firas ninguém.
5
Busca a felicidade agora, não
sabes de amanhã.
Apanha um grande copo cheio
de vinho,
senta-te ao luar, e pensa:
Talvez amanhã a lua me
procure em vão.
6
Não procures muitos amigos,
nem busques prolongar
a simpatia que alguém te
inspirou;
antes de apertares a mão que
te estendem,
considera se um dia ela não
se erguerá contra ti.
7
Alcorão, o livro supremo,
pode ser lido às vezes,
mas ninguém se deleita sempre
em suas páginas.
No copo de vinho está gravado
um texto de adorável
sabedoria que a boca lê, a
cada vez com mais delícia.
8
Há muito tempo, esta ânfora
foi um amante,
como eu: sofria com a
indiferença de uma mulher;
a asa curva no gargalo é o
braço que enlaçava
os ombros lisos da bem amada.
9
Que pobre o coração que não
sabe amar
e não conhece o delírio da
paixão.
Se não amas, que sol pode te
aquecer,
ou que lua te consolar?
10
Hoje os meus anos
reflorescem.
Quero o vinho que me dá
calor.
Dizes que é amargo? Vinho!
Que seja amargo, como a vida.
11
É inútil a tua aflição;
nada podes sobre o teu
destino.
Se és prudente, toma o que
tens à mão.
Amanhã... que sabes do
amanhã?
12
Além da Terra, pelo Infinito,
procurei, em vão, o Céu e o
Inferno.
Depois uma voz me disse:
Céu e Inferno estão em ti.
13
Não vamos falar agora, dá-me
vinho. Nesta noite
a tua boca é a mais linda
rosa, e me basta.
Dá-me vinho, e que seja
vermelho como os teus lábios;
o meu remorso será leve como
os teus cabelos.
14
Tenho igual desprezo por
libertinos ou devotos.
Quem irá dizer se terão o Céu
ou o Inferno?
Conheces alguém que visitou
esses lugares?
E ainda queres encher o mar
com pedras?
15
Na sombra azulada do jardim
o ar da primavera renova as
rosas
e ilumina os meigos olhos da
minha amada.
Ontem, amanhã... é tão grande
o prazer agora.
16
Bebo, mas não sei quem te
fez, ó grande ânfora;
podes conter três medidas de
vinho, mas um dia
a Morte te quebrará. Numa
outra hora perguntarei
como foste criada, se foste
feliz, ou por que serás pó.
17
Como o rio, ou como o vento,
vão passando os dias.
Há dois dias que me são
indiferentes:
O que foi ontem, o que virá
amanhã.
18
Não me lembro do dia em que
nasci;
não sei em que dia morrerei.
Vem, minha doce amiga, vamos
beber deste copo
e esquecer a nossa incurável
ignorância.
19
Khayyam, enquanto erguias a
tenda da Sabedoria,
caíste na fogueira da dor;
agora és cinzas.
O Anjo Azrail cortou as
cordas da tua tenda
e a Morte vendeu-a por uma
ninharia.
20
É inútil te afligires por
teres pecado;
também é inútil a tua
contrição:
além da morte estará o Nada,
ou a Misericórdia.
21
Cristãos, judeus, muçulmanos,
rezam,
com medo do inferno; mas se
realmente soubessem
dos segredos de Deus, não iam
plantar
as mesquinhas sementes do
medo e da súplica.
22
Na estação das rosas procuro
um campo florido
e sento-me à sombra com uma
linda mulher;
não cuido da minha salvação:
tomo o vinho
que ela me oferece; senão, o
que valeria eu?
23
O vasto mundo: um grão de
areia no espaço.
A ciência dos homens:
palavras. Os povos,
os animais, as flores dos
sete climas: sombras.
O profundo resultado da tua
meditação: nada.
24
Eu estava com sono e a
Sabedoria me disse:
A rosa da felicidade não se
abre para quem dorme;
por quê te entregares a esse
irmão da morte?
Bebe vinho; tens tantos
séculos para dormir.
25
Admito que já resolveste o
enigma da Criação;
e o teu destino? Aceito que
desvendaste a Verdade;
e o teu destino? Está bem,
viveste cem anos felizes
e ainda tens muitos para
viver; e o teu destino?
26
Ninguém desvendará o
Mistério. Nunca saberemos
o que se oculta por trás das
aparências.
As nossas moradas são
provisórias, menos aquela última.
Não vamos falar, toma o teu
vinho.
27
Olha, um dia a alma deixará o
teu corpo
e ficarás por trás do véu,
entre o Universo
e o desconhecido. Enquanto
não chega a hora,
procura ser feliz. Para onde
irás depois?
28
Os sábios mais ilustres
caminharam nas trevas da ignorância,
e eram os luminares do seu
tempo.
O que fizeram? Balbuciaram
algumas frases confusas,
e depois adormeceram,
cansados.
29
A vida é um jogo monótono que
dá dois prêmios:
A Dor e a Morte.
Feliz a criança que expirou
ao nascer;
mais feliz quem não veio ao
mundo.
30
Na feira que atravessas não
procures amigos
ou abrigo seguro. Aceita a
dor que não tem remédio
e sorri ao infortúnio; não
esperes que te sorriam:
Seria tempo perdido.
31
O mundo gira, distraído dos
cálculos dos sábios.
Renuncia à vaidade de contar
os astros
e lembra-te: vais morrer, não
sonharás mais,
e os vermes da terra cuidarão
da tua carcaça.
32
Aquele que criou o Universo e
as estrelas
exagerou quando inventou a
dor.
Lábios vermelhos como rubis,
cabelos perfumados,
quantos sois no mundo?
33
Velho mundo sob o passo do
cavalo branco e negro
dos dias e das noites, és o
palácio triste onde mil Djenchids
sonharam com a glória e mil
Bahrams com o amor,
e a cada manhã acordavam
chorando.
34
Sono sobre a terra, sono
debaixo da terra.
Sobre a terra, sob a terra:
homens deitados.
Nada em toda a parte.
Deserto.
Homens chegam, outros partem.
35
Enquanto o rouxinol lhe
entoava um hino,
murchou a bela rosa por causa
do vento sul.
Lamentaremos por ela ou por
nós?
Quando morrermos, outra rosa
desabrochará.
36
Se não tiveste a recompensa
que merecias,
não te importes, não esperes
nada;
já estava tudo nas páginas
daquele livro
que o vento da eternidade vai
virando ao acaso.
37
Quando me falam das delícias
que na outra vida
os eleitos irão gozar,
respondo:
Confio no vinho, não em
promessas;
o som dos tambores só é belo
ao longe.
38
Bebe vinho, ele te devolverá
a mocidade,
a divina estação das rosas,
da vida eterna,
dos amigos sinceros. Bebe, e
desfruta
o instante fugidio que é a
tua vida.
39
Bebe o teu vinho. Vais dormir
muito tempo
debaixo da terra, sem amigos,
sem mulheres.
Confio-te um grande segredo:
As tulipas murchas não
reflorescem mais.
40
Baixinho a argila dizia
ao oleiro que a torneava:
Já fui como tu, não te
esqueças,
não me maltrates.
41
Oleiro, vai com cuidado,
trata bem a argila
com que Adão foi conformado.
Vejo no torno que moves a mão
de Feridun,
o coração de Khosru... o que
fizeste?
42
A tulipa rubra nasce no campo
que foi regado
pelo sangue de um altivo rei.
A violeta brota do sinal de
beleza que palpitava
na face de uma doce
adolescente.
43
Há tanto tempo giram os
astros no espaço;
há tanto tempo se revezam os
dias e as noites.
Anda de leve na terra, talvez
aonde vais pisar
ainda estejam os olhos meigos
de um adolescente.
44
As raízes do narciso que se
inclina suave,
bebem a vida nos lábios
mortos de uma mulher.
Pisa leve a relva macia, ela
nasce das cinzas
de rostos tão belos quanto as
tulipas.
45
O oleiro ia modelando as
alças e os contornos
de uma ânfora. O barro que
ele conformava
era feito de crânios de
sultões
e mãos de mendigos.
46
O bem e o mal se entrelaçam
no mundo.
Não agradeças ao Céu
pela sorte que te coube, nem
o acuses:
Ele é indiferente.
47
Se em teu coração cultivaste
a rosa do amor,
quer tenhas procurado ouvir a
voz de Deus,
ou esgotado a taça do prazer,
a tua vida não foi em vão.
48
Vai com prudência, viajante.
A estrada é perigosa, a adaga
do destino
é acerada. Não colhas as
amêndoas doces,
são venenosas.
49
Um jardim florido, uma bela
mulher, e vinho.
Eis o meu prazer e a minha
amargura,
o meu paraíso e o meu
inferno.
Mas quem sabe o que é Céu e o
que é Inferno?
50
Com a tua face como a rosa,
com o teu rosto belo,
como o de um ídolo chinês,
não sabes
o que o teu olhar faz do rei
da Babilônia?
Um bispo do xadrez, que foge
da rainha.
51
A vida passa. O que resta de
Bagdad e Balk?
A aragem mais leve é fatal à
rosa já desabrochada.
Bebe o vinho, e contempla a
lua:
lembra-te das civilizações
que ela já viu morrer.
52
Ouve o que a Sabedoria diz
todos os dias:
A vida é breve.
Não te esqueças, não és como
certas plantas
que rebrotam depois de
cortadas.
53
Mestres e sábios morreram
sem se entenderem sobre o Ser
e o Não Ser.
Nós, ignorantes, vamos
apanhar as tenras uvas;
que os grandes homens se
regalem com as passas.
54
O meu nascimento não aumentou
o Universo,
nem a minha morte lhe fanará
o esplendor.
Ninguém me dirá por quê vim
ao mundo,
ou porquê um dia irei embora.
55
Iremos nos perder na estrada
do amor,
e o destino nos pisará,
indiferente.
Vem, menina, taça encantada,
dá-me de beber
em teus lábios, antes que eu
me torne pó.
56
Só de nome conhecemos a
felicidade.
O nosso melhor amigo é o
vinho;
afaga a única que te é fiel:
a ânfora,
cheia do sangue das vinhas.
57
Não te inquietes, a vida é
como um suspiro.
As cinzas de Djenchid e de
Kai-Kobad volteiam
na poeira vermelha que tolda
o ar.
O Universo é uma miragem, a
vida é um sonho.
58
Senta-te e bebe, felicidade
que Mahmud não teve.
Escuta os sussuros dos
amantes, são os Salmos de Davi.
Não te importes com o
passado, não sondes o futuro,
não percas este instante: Eis
a paz.
59
Pessoas presunçosas e obtusas
inventaram
diferenças entre o corpo e a
alma.
Sei apenas que o vinho apaga
as angústias
que nos atormentam, e nos
devolve a calma.
60
Que enigma os astros que
andam pelo espaço.
Agarra-te à corda da
sabedoria, Khayyam.
Presta atenção à vertigem
que faz cair perto de ti os
teus companheiros.
61
Não temo a morte. Prefiro
esse ato inelutável
ao outro que me foi imposto
no dia em que nasci.
O que é a vida, afinal? Um
bem que me confiaram
sem me consultarem e que entregarei
com indiferença.
62
Estou velho, e a paixão que
me inspiraste
vai me levar ao túmulo: não
cesso de encher a taça.
Esta paixão tem razão contra
mim:
o tempo estraga a minha bela
rosa.
63
Podes me perseguir, miragem
de outra ventura,
podes modular a tua voz, mas
só escuto aquela
que já me encantou. Dizem-me:
Deus te perdoará.
Recuso o perdão que não pedi.
64
Um pouco de pão, um pouco de
água,
a sombra de uma árvore, e o
teu olhar;
nenhum sultão é mais feliz do
que eu,
e nenhum mendigo é mais
triste.
65
Tantos carinhos, tantas
delícias,
tanta ternura no começo do
nosso amor.
Mas agora o teu prazer
é dilacerar o meu coração.
Por quê?
66
Vinho, bálsamo para o meu
coração doente,
vinho da cor das rosas, vinho
perfumado
para calar a minha dor.
Vinho, e o teu alaúde
de cordas de seda, minha
amada.
67
Falam de um Criador...
e Ele deu forma às criaturas
para destruí-las?
Por que são feias? Por que
são belas?
Quem é o responsável? Não
compreendo nada.
68
Todos pretendem andar pelo
Caminho do Saber.
Uns o procuram, outros
afirmam tê-lo encontrado.
Um dia uma grande voz dirá:
Não há caminho,
nem atalho.
69
Brinda ao resplendor da
aurora, e dedica
o vinho vermelho desta taça,
em forma de chama,
ou de tulipa, ao sorriso meigo
de algum adolescente.
Bebe, e esquece que o punho
da dor te prostrará.
70
Vinho! Que palpite em minhas
veias,
que inunde a minha cabeça.
Silêncio!
Tudo é mentira. Copos!
Depressa!
Envelheci muito.
71
Do meu túmulo virá um tal
perfume de vinho
que embriagará os que por lá
passarem,
e uma tal serenidade vai
pairar ali,
que os amantes não quererão
se afastar.
72
No turbilhão da vida são
felizes aqueles
que presumindo saber tudo não
se instruem.
Fui buscar os segredos do
Universo e voltei
invejando os cegos que
encontrei pelo caminho.
73
Alguns amigos me dizem: Não
bebas mais Khayyam.
Respondo: Quando bebo, ouço o
que me dizem
as rosas, as tulipas, os
jasmins;
ouço até o que não me diz a
minha amada.
74
Em que pensas? Nos que já morreram?
São pó no pó.
Pensas nas virtudes que
tiveram? Sim? Deixa-me sorrir.
Toma este copo, vamos beber;
ouve sem inquietação
o vasto Silêncio do Universo.
75
Não faças planos para amanhã.
Sabes se poderás terminar a
frase que vais dizer?
Talvez amanhã estejamos tão
longe deste albergue,
como os outros que já se
foram há sete mil anos.
76
Conquistador de corações,
belo moço
de olhos brilhantes e altivo
semblante,
senta-te e apanha um copo. Eu
te contemplo,
e penso na ânfora que serás
um dia.
77
Há muito tempo a minha
mocidade se foi.
Primavera da minha vida,
passaste como passaram
as outras primaveras: sem que
eu percebesse.
Partiste, como se vão os
melhores dias.
78
Sente todos os perfumes,
todas as cores,
todas as músicas; ama todas as
mulheres.
Lembra-te que a vida é breve,
e que breve voltarás ao pó.
79
Não terás paz na terra, e é
tolice acreditar
no repouso eterno. Depois da
morte
teu sono será breve:
renascerás na erva
que será pisada, ou na flor
que murchará.
80
O que realmente possuo?
O que restará de mim depois
da morte?
É tão breve a vida, uma
fogueira:
Chamas, e depois, cinzas.
81
Convicção e dúvida, erro e
verdade:
são palavras, como bolhas de
ar;
brilhantes, ou baças: vazias,
como a existência dos homens.
82
Escuta, isto ninguém te
contou:
Quando a primeira alba
clareou o mundo,
Adão já era uma criatura
dolorosa,
que pedia a noite, ansiava a
morte.
83
Não pedi para nascer. Recebo,
sem espanto ou ira,
o que a vida me entrega. Um
dia hei de partir;
não me importa saber qual o
motivo
da minha misteriosa passagem
pelo mundo.
84
Colhe os frutos que a vida te
oferece
e escolhe as taças maiores;
não creias que Deus vá fazer
as contas
dos teus vícios e das tuas
virtudes.
85
Os meus cabelos estão brancos,
tenho setenta anos de idade.
Agarro agora a felicidade;
amanhã,
talvez não me restem forças.
86
Nunca procurei saber onde
encontrar
o manto da mentira e do
ardil,
mas sempre andei à procura
dos melhores vinhos.
87
Alguns sábios da Grécia sabiam
propor enigmas?
É absoluta a minha
indiferença por tanta inteligência.
Dá-me vinho, minha amiga;
deixa-me ouvir o alaúde,
olha como lembra o vento que
passa, como nós.
88
É o mês do Ramadã. Amanhã o
sol
vai iluminar uma cidade
silenciosa;
os vinhos dormirão em suas
urnas
e as mulheres à sombra dos
bosques.
89
Somos os peões deste jogo do
xadrez
que Deus trama. Ele nos move,
lança-nos
uns contra os outros, nos
desloca, e depois
nos recolhe, um a um, à Caixa
do Nada.
90
A abóbada celeste se parece a
uma taça emborcada;
sob ela, em vão, erram os
sábios.
Ama a tua amada como a ânfora
ama o copo;
olha, boca a boca, ela lhe dá
o seu próprio sangue.
91
O amor que não consome, não é
amor;
a brasa tem o mesmo calor de
uma fogueira?
Aquele que ama, pelas noites
e dias,
vai se consumindo no prazer e
na dor.
92
Não aprendeste nada com os
sábios,
mas o roçar dos lábios de uma
mulher em teu peito
pode te revelar a felicidade.
Tens os dias contados. Toma
vinho.
93
O vinho dá-te o calor que não
tens;
suaviza o jugo do passado e
te alivia
das brumas do futuro;
inunda-te de luz
e te liberta desta prisão.
94
Nunca rezei nas mesquitas,
mas antes
ainda sentia uma tênue
esperança.
Agora gosto de me sentar lá;
aquela sombra é propícia ao
sono.
95
Na terra cheia de cores
alguém caminha:
não é muçulmano, não é
infiel, nem pobre, nem rico;
não acredita na Verdade e não
afirma nada.
Quem é esse, intrépido e
triste?
96
Um dia pedi a um velho sábio
que me falasse sobre os que
já se foram.
Ele disse:
Não voltarão. Eis o que sei.
97
Olha, a rosa estremece ao
sopro do vento;
um pássaro entoa um hino; uma
nuvem paira.
Bebe, e esquece que o vento
vai ressecar a rosa,
levar a nuvem refrescante e o
canto do rouxinol.
98
Onde estão os nossos amigos?
Já morreram?
Ainda os ouço na taverna...
já se foram? ou estarão
embriagados
de tanto terem vivido?
99
Quando eu não mais viver, não
haverá mais rosas,
nem lábios vermelhos, nem
vinhos perfumados;
não haverá auroras, nem
amores, nem penas:
o Universo terá acabado, pois
ele é o meu pensamento.
100
Podes sondar a profunda noite
que nos envolve
e ir pelo mistério adentro.
Em vão.
Adão, Eva, como deve ter sido
amargo aquele beijo
que nos gerou tão
desesperançados.
101
Cansado de perguntar aos
sábios, perguntei à taça:
para onde irei depois da
morte?
Ela me respondeu baixinho:
Bebe em minha boca,
bebe longamente: não
voltarás.
102
Eu estava numa olaria e mil
ânforas murmuravam.
Então uma delas disse:
Silêncio, deixem
que esse homem se lembre dos
oleiros
e dos compradores de ânforas
que já fomos.
103
Nesta noite caem pétalas das
estrelas,
mas o meu jardim ainda não
está coberto delas.
Assim como o céu derrama
flores sobre a terra,
verto em minha taça o vinho
da cor das rosas.
104
Queres saber como será o
amanhã? Tolice.
Confia, ou o fado justificará
os teus receios.
Não te apegues, não
questiones livros nem pessoas,
nosso destino é insondável.
105
A aurora encheu de rosas a
taça do céu,
e o último rouxinol canta o
seu meigo canto;
e ainda há quem pense em
honras e glórias...
Vem, menina... que sedosos
são os teus cabelos...
106
Vai um cavaleiro pelas
sombras do entardecer.
Aonde irá, por serras e por
vales?
e onde estará deitado amanhã?
Sobre a terra, ou debaixo dela?
107
O vinho é da cor das rosas;
talvez não seja o sangue das
uvas, mas das rosas;
e o azul desta taça talvez
seja o céu cristalizado;
e não seria a noite a
pálpebra do dia?
108
Mais outra aurora. Como em
todas as manhãs,
deparo a beleza do mundo, e
não posso agradecer:
há tantas rosas, tantos
lábios. Vem minha amiga,
pousa o teu alaúde, os
pássaros estão cantando.
109
Homem ingênuo, pensas que és
sábio
e estás sufocado entre os
dois infinitos
do passado e do futuro. Não
podes sair.
Bebe, e esquece a tua
impotência.
110
O que farei hoje? Ir à
taverna? Ler um livro?
Um pássaro passa. Aonde irá?
Já não o vejo.
Embriaguez de uma ave no céu
azul e morno;
melancolia de um homem que
ainda se lembra.
111
Mais vinho, minha amiga,
as tuas faces ainda não estão
rosadas.
Um pouco mais de tristeza,
Khayyam,
tua amada vai te olhar, vai
sorrir.
112
Não tragam lâmpadas, os meus
amigos adormeceram;
estão imóveis, pálidos, como
ficarão no túmulo.
Não tragam as lâmpadas,
os mortos não precisam delas.
113
Estudei muito e tive mestres
eminentes
e me orgulhava dos meus
progressos e triunfos.
Agora lembro-me do sábio que
eu era: era como a água
que toma a forma do vaso,
como a fumaça ao vento.
114
Guardo as minhas tristezas
como a ave
se esconde para morrer. Dá-me
vinho, minha amiga,
e escuta os meus gracejos:
Vinho, rosas, lábios,
e a tua indiferença pela
minha dor.
115
Despe-te dessas roupas que te
envaidecem
e que não trazias ao nascer;
os teus conhecidos não te
cumprimentarão mais,
mas em teu peito cantarão os
Serafins do céu.
116
Aconteceu o que eu já
esperava: Ela me deixou.
Quando eu a tinha era tão
fácil a renúncia;
junto dela, como estavas só,
Khayyam;
ela se foi para te refugiares
nela.
117
Ah, Senhor, destruíste a
minha alegria,
ergueste uma muralha entre
mim e a minha amada,
pisaste a minha bela seara;
vou morrer,
e Tu, cambaleias, embriagado.
118
Silêncio, dor da minha alma,
deixa-me procurar um remédio.
É preciso viver; os mortos
não se lembram
e eu quero rever a minha
amada.
119
É grande a tua dor? Não lhe
dês atenção.
Lembra-te dos outros que
sofrem inutilmente.
Procura uma linda mulher; mas
cuidado, evita amá-la,
e ela, que não te ame.
120
Rosas, taças, lábios
vermelhos:
brinquedos que o Tempo estraga;
estudo, meditação, renúncia:
cinzas que o Tempo espalha.
Metade
Metade de mim que gira
em órbita distantee me deixa assim errante
a vagar no breu
parte que se encaixa em mim
minha semelhante e avesso
por quem ora padeço
por não te encontrar
metade afastada de mim
vem, antes que eu pereça
e me ajude a decifrar
esses complexos quebra-cabeças
que são o Existir e o Amar.
(Poema para meu amigo Daniel Victória)
Descompasso
Sou um ser racional,
Mas em verdade sou um desastre,
Porque apreendo em sístole
E me exponho em diástole.
E nesse pulsar, ando às tontas
- delirante e titubeante,
É esta a minha marca.
O brilho da minha vida
É inconstante, já bruxuleante
Como o farol de uma ilha
Que nenhum navio atraca.
Personagem
Não tenho talento algum.
Sou aquele servo a quem foi confiado 1 talento
e, por medo da severidade do meu senhor, o escondeu na terra
e foi repreendido e lançado neste mundo exterior
onde só há trevas e ranger de dentes.
Sim, eu sou este infeliz.
Olho o mundo à minha volta
e em cada coisa que há nele,
vejo sinais do meu erro.
Ele está nas árvores que dão sombra e fruto,
nas aves que dão som e alegria,
nos animais que conhecem a humildade,
nas ervas que curam,
no frescor da água,
no calor do fogo,
nas estrelas que brilham,
na lua que evoca amores,
no sol que a tudo ilumina.
Não tenho talento algum, bem sei.
Mas não trago em mim arrependimentos,
nem mesmo invejo os outros
que multiplicaram os que o senhor lhes deu.
O que me entristece de fato é saber
que há um número grande de outros sem talento
que estão jogados às trevas e ao relento,
condenados à ignomínia como eu.
Alma
Não sei quantas vezes fiquei na
estação imaginária
a sonhar com quem jamais viria. Não sei.
A olhar o movimento das pessoas
a sonhar com quem jamais viria. Não sei.
A olhar o movimento das pessoas
que nem se pareciam com
conhecidos
- transeuntes inventados pelo
meu sofrimento.
E tanto barulho, cheiros, choros, gritos...
frutos desta briga travada entre a razão e o coração.
E tanto barulho, cheiros, choros, gritos...
frutos desta briga travada entre a razão e o coração.
E eu me via ali no meio de
tanta gente e tão só,
até que eu acordava e me dava conta da solidão e sofria.
Só sabia o porquê dessa estação imaginária, e me resignava
até que eu acordava e me dava conta da solidão e sofria.
Só sabia o porquê dessa estação imaginária, e me resignava
Não sei quantas vezes voltarei
à estação imaginária,
com o coração sofrendo e a
mente revoltada.
Não sei por quantas vezes
reviverei a amargura
do momento em que a razão
prevaleceu,
afastando a minha parte mais
amada.
Não sei quantas vezes
sentirei
minha alma – minha serva - me
conduzindo
por terras estranhas que nunca irei,
cidades exóticas que não conhecerei,
planetas distantes que jamais saberei.
Me mostrando clowns que têm meu rosto,
por terras estranhas que nunca irei,
cidades exóticas que não conhecerei,
planetas distantes que jamais saberei.
Me mostrando clowns que têm meu rosto,
pedintes que têm o meu falar,
legiões de abandonados que têm o meu olhar.
E depois me recolocando na estação imaginária. Não sei.
legiões de abandonados que têm o meu olhar.
E depois me recolocando na estação imaginária. Não sei.
Não sei por quantas vezes
voltarei lá.
Só sei que haverá um dia em que um dia
condutor solidário - tal qual o barqueiro sombrio,
me conduzirá para a viagem que me livrará de tudo issoSó sei que haverá um dia em que um dia
condutor solidário - tal qual o barqueiro sombrio,
e minha alma enfim se tornará livre.
Imagine
Quando
puder, imagine
quando não puder, imagine
se der, se não der, imagine
quando estiver alegre
quando estiver triste
imagine que algo existe
Nas noites de insônia
nos momentos de vergonha
nas tardes de tédio, imagine
na euforia, na agonia
quando não puder, imagine
se der, se não der, imagine
quando estiver alegre
quando estiver triste
imagine que algo existe
Nas noites de insônia
nos momentos de vergonha
nas tardes de tédio, imagine
na euforia, na agonia
na
alegria e na dor
seja
como for, imagine
que
as imagens produzidas
serão sempre melhores
que a vida vivida
serão sempre melhores
que a vida vivida
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