sábado, 15 de outubro de 2011

Quietude

Sou mineiro somítico não, sô. Sou é quieto. Mas num gosto de mesquinharias, o pouco que tenho divido com prazer. Dizem por aí que sou fechado, um tanto calado. Sou mesmo. Muitas vezes não vejo tanta necessidade de ficar falando, falando... O bom mesmo é espiar, assuntar, mas sem especular. Cê me entende?

Palavra vale ouro, vale honra. Palavra constrói e destrói; eleva e reduz; faz brotar e aniquila. Palavra é coisa muito delicada. É um fiozinho que une vidas e que não pode se romper. O uso da palavra não pode ser muito breve nem muito longo. Palavra não pode ficar sempre escondida, nem pode ser desgastada. Eu confesso: muitas vezes tenho medo de me manifestar com elas, prefiro um gesto, um sorriso, um olhar, que são também formas da tal comunicação. Eu custei a falar do meu amor para a mulher que eu amo. Sofri com isso. Pois então, o que era pra ser, como se diz, verbalizado, ficou travado na minha garganta muito tempo - tempo demais. Certas palavras tomam o controle da vida gente e nos oprime, quando era pra nos libertar. Foi assim comigo.

Às vezes eu invejo as crianças que perguntam, falam, falam, especulam sem pudor, como se tivessem poder sobre as palavras. Algumas crianças mais ativas nos deixam sem respostas e isso é bom. Mas a educação e a tal moralidade, ou sei-lá-o-quê, vai diminuindo este poder delas. Mais tarde muitas sofrem por necessitar da liberdade que tinham. Eu nunca fui muito de falar não, mas conheci gente que passou por isso.

Eu vivia meio agoniado por ser assim tão quieto. Não, não sou calmo, só quieto. Desde menino sou assim. Chamam de timidez, e deve ser mesmo. Eu queria imitar os outros meninos mais saídos porque eu achava que eles conseguiam mais coisas dos pais, e tal. Um dia eu dei uma rosa pra minha mãe. Acho que vi uma coisa assim num filme - não sei direito, me desculpe. Dei a rosa sem dizer palavra. Minha mãe pegou a rosa e me sorriu com o olhar, então eu entendi o significado, o segredo da tal comunicação: um belo gesto não precisa de palavra. um belo gesto só precisa ser feito. Isso fez um bem pra mim danado. Ainda faz.

Um dia um sujeito - desculpe - um professor, me disse que eu era "um tanto meditabundo". Eu ri. Pensei: "que palavra esquisita!" "Me-di-ta-bun-do!", soletrei. Mas fui procurar no dicionário e percebi que ele estava certo e achei mais graça ainda. Sou somítico não, sô. Prefiro mesmo é ficar quieto no meu canto. È o que eles chamam por aí de "mineiridade". Deve ser.

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